Devido a múltiplos fatores, entre eles: o avanço da tecnologia e a maior acessibilidade às informações, a educação, ao ideal de felicidade expressado através das posses, a supervalorização material, e a exposição e comparações geradas nas redes sociais, a nossa sociedade se mostra cada vez mais individualista.
A juventude brasileira, que representa o futuro econômico, social e educacional do nosso país está apresentando sérias dificuldades de identidade. A partir disso, podemos compreender melhor os altíssimos índices de depressão, ansiedade, e outras doenças psíquicas que geram extremo sofrimento por busca de sentido na vida. A quebra de padrões, negação dos valores tradicionais, e as tentativas incessantes de se encaixar no mundo em que muitos não se identificam, estão trazendo a falsa sensação de “liberdade” acompanhada de um grande vazio existencial.
As escolas, que antes tinham o papel de adicionar ou manter a educação vinda de casa, hoje não só fazem essa função, como são exclusivas nela. O ambiente escolar se tornou o espaço da formação de personalidade e afeto das crianças que carecem disso em suas respectivas famílias.
Simultaneamente a isso, vivemos em um período individualista pós-moderno, que se fortaleceu intensamente com a pandemia, devido ao crescimento exponencial de consumo e valorização material. Dentro desse cenário, a confusão e vulnerabilidade imperam. Os valores e crenças foram substituídos por um moralismo superficial, e um descompromisso com as relações. Cada vez mais estamos vivendo por nós mesmos, com uma mentalidade egoísta, se afastando dos princípios básicos das relações estáveis, sólidas e sustentáveis. As redes sociais estão sendo utilizadas como ferramentas de competição econômica, social e emocional de uma realidade na maioria das vezes inexistente.
A sociedade do descompromisso e da ausência de sentido valoriza mais os aparelhos eletrônicos do que as companhias; mais as fotos, selfies e stories do que a beleza e vivência dos lugares; mais os adornos e acessórios utilizados do que a gentileza e o caráter das pessoas; mais o culto ao corpo perfeito do que a saúde propriamente dita, e mais a felicidade e prazer momentâneos do que o compromisso de uma relação duradoura. As verdadeiras virtudes que tornam o ser humano digno e realizado estão se tornando raras. A desunião familiar, a busca imediata pelos prazeres e facilidades, se abstendo das frustrações, da paciência e dos sacrifícios necessários, estão nos transformando em verdadeiros alienados de um mundo real e consistente de relações autênticas.
Diante disso, proponho uma reflexão: Até que ponto estamos deixando de criar vínculos que realmente importam, relações saudáveis que nos tornam melhores como pessoas dentro da nossa sociedade, e nos geram a segurança e o conforto de compartilhar vivências, por ideais individualistas e materialistas?
Somos seres sociáveis por natureza, e a beleza da vida é conquistada também através da partilha da felicidade com as pessoas. A construção de sentido é o que dá clareza para o indivíduo e o faz entender o seu papel no mundo, seus propósitos, valores e princípios através das experiências e conexões.
Artigo publicado no Jornal Diário da Região 25/02/2023